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Meus carros: F100 1958

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Foram tantas histórias com o Fusca laranja que se resolvesse registrar nesse blog todas elas, acabaria virando um livro, quem sabe um dia vira alguma coisa, por enquanto vou guardá-las e me adiantar na série, senão corro o risco de entendiar meus queridos seguidores. Assim, tomo a liberdade de dar um pequeno salto no tempo e dar-lhes uma triste notícia, o Fusca Laranja foi vendido, por uma segunda vez (disse que tem muita história) e, dessa vez, não foi devolvido, apesar do adiantado estado de embriaguez do comprador.

Apaixonado por carros, adquiri o costume de visitar a feira no estacionamento do Anhembi, em São Paulo. Acordava cedo todos os domingos, pegava o ônibus até o Tietê e seguia a pé até o lugar, aproveitando para ver os carros que ficavam de fora do Parque, ocupando as avenidas, estacionados desde a madrugada, aguardando compradores. Não tinha muito dinheiro, mas gostava de poder ver tantos carros à venda reunidos num mesmo espaço, poder apreciar as raridades e rir silenciosamente das esculturas de massa plástica que mal podiam manter-se em pé, tentando iludir com um brilho falso e um pretinho nos pneus carecas. O passeio era coroado com uma deliciosa fogazza em uma simpática barraca de uma família napolitana.

Num passeio desses, dentro do estacionamento, encontrei aquela que me seduziu a primeira vista, uma linda pickup Ford F100, 1958, toda linda, com a lataria inteiramente restaurada num vermelho cereja, com enorme escapamento que se erguia verticalmente um pouco atrás da cabine, cromado como todas as outras peças que adornavam aquela maravilha. O vendedor, mais orgulhoso por sua preciosidade e animado em matar minha curiosidade, abriu o capô, quer dizer, a frente inteira da belezura, pois havia integrado capô e paralamas, abrindo-os para a frente e expondo o belíssimo motor V8, amarelo, com todas as peças brilhantes. Os pneus gigantes, montados sobre rodas largas harmonizavam todo o conjunto.

O preço era inatingível, uma obra de arte para poucos, mas saí do encontro bastante inspirado.

Na semana seguinte, vasculhei a cidade a procura de uma caminhonete daquele ano, velha, afundada na poeira, com a esperança de poder recuperá-la e transformá-la naquela maravilha, armado apenas com a minha boa vontade e nenhuma grana no bolso.

Para um garoto como eu, nada era impossível, acho que todos os garotos de 20 anos sentem-se indestrutíveis e poderosos, talvez uma síndrome de Super-Homem que ainda não foi devidamente estudada, que nos tira o juízo e nos faz idiotas, vitoriosos, tolos e, principalmente, destemidos.

Encontrei várias, muitas sem salvação, outras bonitas, bem conservadas, mas caras. Nenhuma tão suficientemente boa para o meu nível de exigência e barata para o meu bolso. Não podia desistir da idéia, quando pensava em fraquejar do meu objetivo, a imagem daquela gigante vermelha me vinha à mente, com seu enorme motor roncando naqueles escapamentos brilhantes.

Trabalhava na borracharia e sempre fui muito falante, acho que os clientes entravam e saiam enquanto eu continuava contando a mesma história, falando sobre meu desejo, minha procura. Um dia um deles me animou, disse que conhecia um cara que tinha uma caminhonete dessas encostada no fundo do quintal. Insisti e descobri que esse sujeito era um cara conhecido, freguês da oficina, genro de um importante político da região.

Fui atrás, encontrei a casa do sujeito, uma bela residência com gramado e piscina. A F100 abandonada no fundo do quintal estava em tristes condições: pneus vazios, coberta por folhas, com carburador desmontado, sem bateria e sem tanque de combustível. O sujeito me recebeu, mostrei toda minha animação, contei os meus desejos e o convenci a limpar o seu quintal, dando-lhe a certeza de que estava entregando aquele carro de família para alguém que o trataria muito bem.

Soube que a caminhonete era um presente que ele tinha recebido do pai, última unidade de uma frota de uma antiga empresa da família, que havia sido guardada por ter o mesmo ano do seu nascimento. Havia passado por uma reforma, o motor era completamente zero, a pintura era recente, mas um descuido havia causado uma batida na porta do motorista que podia ser facilmente recuperada com um pouco de carinho. O problema era que sua mulher odiava o ornamento no quintal. Todos sabem como são convincentes as mulheres, principalmente quando querem mudar a decoração.

Negociamos um preço e chegamos facilmente a um acordo. Paguei o que podia para limpar o espaço e me comprometi a saldar o restante quando ele me entregasse os documentos atualizados.

A primeira providência para ressucitá-la foi comprar uma bateria nova, enorme, caríssima. Depois, bastou recuperar o carburador, reinstalar o filtro e adaptar um vasilhame plástico de combustível dentro da cabine, alimentando o motor com uma mangueira transparente. O motor acordou com poucas tentativas. O câmbio na coluna de direção, com 3 marchas, era um mistério, mas logo peguei o jeito, pisei na embreagem, consegui engatar a primeira e saí devagarzinho. Me animei, engatei a 2ª e vi o lindo velocímetro subir o ponteiro. Pisei no freio e levei um susto, só umas duas rodas frearam e a bicha balançou feio, me obrigando a segurar o coração, antes que saísse pela boca. Diminuí e, com a responsabilidade de garotos de 20 anos que se acham indestrutíveis, cheguei em casa, distante a mais de 15 quilômetros, enfrentando um trânsito intenso, sem documentos, dirigindo um veículo completamente estranho, com vários problemas mecânicos e um câmbio complicado.

Meu pai quase me matou quando viu aquilo entrando no quintal. Minha mãe surtou. Minhas irmãs me chamaram de maluco. Eu sorria de orelha a orelha, pulando de felicidade.

Agora faltava pouco, trabalhar para conseguir o dinheiro para pagar o saldo restante, comprar as peças para deixá-la em mínimas condições de rodar com alguma segurança pelas ruas e, depois, sonhar com pneus e rodas gigantes, pintura e funilaria nova, hummm, faltava tanto e tão pouco ao mesmo tempo!

O dia-a-dia era transitado com minha valente bicicleta e, quando saía para lugares mais distantes, ônibus. Assim, aos poucos fui encarando a realidade. Meu carro era inútil, mal saía do quintal e minha grana era curta demais. Não demorou para sentir saudades do meu Laranjão.

Aos poucos, fui dando razão aos apelos do meu pai, cheguei a acreditar que havia feito um dos piores negócios do mundo. Então, derrotado, tentei trocar minha preciosidade por um Opala 4 portas, completamente podre, mas que andava. O sujeito, vendo o meu desespero, aceitou o negócio com a condição que ainda lhe pagasse uma boa diferença de volta, dividida em dolorosas parcelas. Aceitei o negócio, fechado numa mesa de bar regada com a cerveja que podíamos pagar. No dia seguinte, levei a F100 para o abate, disposto a fazer a troca. Mas o sujeito mudou de idéia, graças à Deus!!!

Na hora, desanimado com o mico que tinha nas mãos, resolvi rodar por alguns desmanches procurando um tanque de gasolina que pudesse ser adaptado, diminuindo o risco de ver a gasolina explodir no meu colo enquanto dirigia. Estacionei na porta da loja, entrei e procurei a peça que me faltava. Quando voltei para a F100, um sujeito observava atentamente cada detalhe da lataria.

Antes que pudesse reagir, me perguntou se aquela caminhonete era do sujeito que me vendeu. Confirmei e disse que era minha, havia comprado a pouco tempo. Então perguntou se queria vendê-la. Respondi que sim e, como reza a lei da oferta e procura diante de uma pergunta dessas, disse que venderia por um valor que a essa altura me foge da memória, mas que seria suficiente para comprar uns quatro Opalas iguais ao que eu tinha tentado trocar naquela manhã. Para a minha surpresa, o sujeito era o dono do desmanche, me levou até o escritório e preencheu o cheque, sem barganhar. Pediu que um funcionário me acompanhasse até o banco e garantisse o meu saque, a bordo de uma caríssima F1000 cabine dupla, à diesel. Claro que sua intenção não era desmanchá-la, garantiu que a deixaria nova, acredito que até hoje faz parte de alguma coleção.

Cheguei à borracharia com um saco cheio de dinheiro. Meu pai mal podia acreditar, só conseguia me chamar de rabudo por ter conseguido arrancar tanto por um “lixo” como aquele.

Foi mesmo muita sorte, mas o fato é que estava vendendo caro o meu sonho. Sabia que nunca poderia realizá-lo, mesmo assim, até hoje, penso em como teria sido bom. Quando vejo uma F100 dessas, num filme ou num desfile de carros antigos, lembro da minha, uma velha senhora resgatada por um garoto sonhador.

De tanto que já falei dela, ganhei da minha esposa uma linda miniatura de presente, nesse último aniversário. Todos os dias a vejo e relembro aquele primeiro ronco e aquela freada torta que quase me matou.

Meus carros: O Fusca Laranja

laranja

Fui às ruas para gritar pelas “Diretas Já”, estive bem perto do palanque montado no Anhangabaú, vendo lado a lado Lula e FHC, Montoro e Covas, Ulysses soberano, todos unidos numa luta pela democracia, pelo fim da ditadura militar. Deu no que deu, a morte repentina da esperança e a ascenção de um dos ícones da ARENA, assumindo a presidência depois de uma estranha manobra, virando a casaca a favor do poder, mais uma vez, José Sarney.

A inflação fazia parte da nossa vida, mas com o governo Sarney atingiu patamares insustentáveis, surgiu o Plano Funaro, sumiço de mercadorias, empréstimos compulsórios, poupança desvalorizada, o que custava $1,00 no início do dia, chegava à noite custando $10,00. Tentávamos nos iludir, tanto que às vezes acreditávamos na reposição de salário que chegaria no final do mês, aumento sempre insuficiente. Sentíamos como náufragos, afundados, lutando por um pequeno gole de ar da superfície, mas logo arrastados de volta para as profundezas. A tão aguardada “abertura” era apenas um refresco para iludir os eleitores, os modos e costumes da ditadura continuavam presentes, como puderam comprovar os alunos da PUC que tentaram assistir “Je Vous Salue, Marie”, desafiando a ordem do coronel bigodudo, num início de ano letivo, e vivenciaram mais uma invasão da truculenta polícia federal que tentou acabar com a festa. A confusão foi imensa, os policiais viram a massa de alunos e desistiram, poucos para tantos. Era minha estréia nos corredores da universidade, um movimento que chegava a me assustar.

Depois de uma promoção no BCN, motivada pelo reconhecimento da minha habilidade no teclado, que permitia operar com facilidade uma máquina de Telex, achei que seria bom cursar Contabilidade, empurrado por minha mãe que sonhava em ver o filho formado e com um bom cargo na instituição. Mas via minhas economias cada vez mais corroídas pela inflação. O amargo lucro que recebi do “Fusca azul pavão que nunca foi meu” se perdeu no complicado efeito da desvalorização da moeda. Precisava ganhar mais para conquistar o meu sonho.

Mais uma vez caí na sedução do meu pai. O velho havia montado uma oficina de borracharia, mas dizia que precisava da minha ajuda. Oferecia uma série de vantagens e de ganhos para que eu largasse meu emprego no banco e fosse ajudá-lo. No começo, resisti. Mas ele me obrigava a trabalhar nos finais de semana, me deixando exausto, sem descanso depois de uma longa semana dividida entre escritório e faculdade. Me pagava a metade do que recebia com a minha mão de obra, consertando pneus. Não era pouco. Os pneus sem câmara de ar eram restritos aos carros novos, raros naquela época. O mais comum era os pneus esvaziarem por câmeras desgastadas, com remendos mal feitos que vazavam com facilidade, poucas vezes furavam com pregos. O movimento era intenso.

A ambição falou mais alto e acabei abrindo mão do meu emprego e largando a faculdade, partindo para uma ilustre carreira de borracheiro. No começo, como todo começo, tudo foi bem, e os ganhos eram suficientes para deixar os dois lados, pai e filho, satisfeitos. Dividíamos também aquele Fusca ex-Telesp, que já figurou por aqui. Mas não tardou para aparecer os desentendimentos. O carro era dele durante a semana inteira, servindo para a locomoção de casa até o trabalho, onde eu era apenas passageiro. Nas tardes de domingo, quando finalmente me livrava da pesada carga de trabalho, ficava livre para uns passeios com o carrinho. Toda a segunda-feira de manhã, quando ele dava a partida, conseguia ouvir barulhos que eu nunca percebia, me culpando por todos os defeitos que não existiam. Não podia aceitar aquilo calado e respondia, sem muito respeito, não o deixando esquecer que o meu azul pavão tinha sido injustamente vendido.

Um dia, cansado de tanto me ouvir e provavelmente preocupado com as minhas ameaças de comprar uma moto, meu pai chegou na borracharia dizendo que tinha visto um Fusca numa loja de carros e que, se eu gostasse, poderia fechar o negócio que ele me emprestaria a diferença. Corri para a loja, pronto para aceitar qualquer coisa que aparecesse, desde que tivesse rodas e saísse do lugar.

O carro tinha sido fabricado em 1975, com mais de 10 anos de uma vida bastante sofrida, refletida numa carroceria toda desengonçada, com amassados, assoalho enferrujado e um motor cansado. A cor era difícil de engolir, um laranja, bem forte, que podia ser reconhecido a quilômetros de distância. Olhei com cuidado, balancei a polia do motor e vi uma boa folga, dei a partida e depois de algumas golfadas de fumaça, funcionou. UAU!!!! Gritei de satisfação!!!! O carro era meu!!! Amor à primeira vista.

Senhores, o Fusca Laranja foi meu primeiro carro, com direito a nome estampado no documento, para que eu pudesse rodar livremente, pelo menos enquanto ele aguentasse.

Com o carrinho, passei por um monte de histórias. Impossível registrá-las agora, prometo que volto a contá-las. Me cobrem, tem aquela vez que viajei pela primeira vez, à noite, sem documentos… Tem aquela vez que me perdi de madrugada na desconhecida zona leste da cidade, dando carona para umas garotas da faculdade… Tem aquela vez que o cabo do acelerador quebrou e me obrigou a passar a noite no meio da rua, em pleno carnaval, sem roupa, sem dinheiro e sem comida… Tem aquela vez que…

Aguardem.

Meus carros: O fusca azul pavão que nunca foi meu

fusca

Sou da época em que era comum os garotos trabalharem cedo, cresci sabendo que o trabalho é a parte mais importante da vida e, claro, a importância de poupar alguns trocados para não passar tantos apertos.

Assim, com uns quatorze anos já era um dos mensageiros do Banco de Crédito Nacional, o BCN, que desapareceu absorvido pelo gigante Bradesco. O salário era mínimo e a carga horária pesada, gastando a sola o dia inteiro pelas ruas da metrópole. Muitas vezes optava por esticar uma caminhada para embolsar o dinheiro da condução. Naquela época o trabalhador não tinha mordomia, o mínimo salário tinha que dar conta do transporte e da alimentação, o que sobrava mal dava para comprar uma calça jeans genérica e um par de tênis de tempos em tempos, roupa que era gasta para o próprio trabalho, assim, no início da minha adolescência, era um obediente escravo de banqueiro, pois os trocados que recebia mal eram suficientes para me manter com mínima dignidade no trabalho.

Mesmo assim, administrando a pobreza, conseguia guardar alguns trocados numa poupança, coisa pequena. Certo dia, enquanto espremia minhas espinhas de 17 anos, meu pai chegou com uma novidade, oferecia uma sociedade na compra de um carro. Achei estranho, mas ele continuou com a oferta, havia encontrado um fusca 1970, de uma viúva, abandonado a uns 5 anos no quintal, pois a dona não sabia dirigir e não queria se livrar do querido carro do falecido. O estado da lataria, largada a própria sorte sob sol e chuva por cinco anos, não era das melhores, mas era um carro que o defunto tinha desde 0km, sem nunca ter sido batido e com pouca quilometragem.

Com o saldo da minha poupança, 5 mil alguma coisa (não lembro mais a moeda da época), foi possível contentar a viúva e limpar o seu quintal. O carro seguiu direto para a oficina e depois de uma reforma na funilaria e uma bela revisão mecânica que consumiu outros 5 mil do meu pai, chegou em casa tinindo de novo, aquele azul pavão espelhado, as partes cromadas doendo os olhos, calotas, acessórios e equipamentos originais, enfim, um carrinho totalmente novo de novo.

Mas o problema é que ainda estava proibido para mim. Não tinha idade suficiente para me matricular numa auto-escola. No fundo sabia que a verdadeira idéia do meu pai era lucrar com o negócio, não pretendia ser tão generoso comigo, mas alimentava uma esperança.

Precisava mostrar que não abriria mão do Fusca tão fácil, por isso não desanimei, acordava cedo todos os sábados, com todos os utensílios necessários, dava a partida, engatava a primeira e ajeitava meu sonho no quintal, caprichava na limpeza, fantasiando em desfilar seu brilho pelas ruas.

Não comentei que na época tinha uma namorada que não agradava muito meu pai, então um dia recebi uma proposta de novela mexicana, caso desistisse do namoro, conseguia as chaves do carro.

Na época, nunca tinha sido apresentado a Maquiavel, estava ainda na fase romântica, um jovem tolo, por isso esbravejei, gritei que poderia me separar por outros motivos, mas meu coração não estava à venda. Hoje talvez optasse por aceitar a proposta, garantir meu nome no documento e depois continuar minha vida como bem entendesse, deixando o velho esperneando de raiva. Mas o fato é que preservei minha dignidade, sem acreditar que ele poderia levar a frente uma proposta tão baixa.

O carro continuou ocupando a garagem e os meus sonhos. No dia que completei 18 anos entrei na auto-escola. No dia que recebi minha carteira de motorista, fui para a aula noturna prometendo para os amigos que na noite seguinte voltaria dirigindo meu carro.

Era quase meia-noite quando desci do ônibus e corri para a casa, o dia tinha sido cansativo. Cheguei no portão e a garagem estava vazia.

Demorei muito para conseguir perdoar meu pai.

Meus Carros – Fusca da Telesp – 1977

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Como todo novo motorista que a mais de vinte anos começava suas aventuras sobre as quatro rodas, aprendi a dirigir um Fusca. Não era um Fusca qualquer, mas um que meu pai havia comprado num leilão da Telesp para o uso da família. Lamento muito não ter uma foto que registre o carro como ele chegou, todo laranja com os emblemas e inscrições borrados por pinceladas de uma tinta azul, então fica essa, encontrada numa busca do Google, perfeita para lembrar aos que não conheceram ou não se lembram, como era o carrinho da companhia telefônica de SP.

Carro de leilão é uma caixinha surpresa, o lote é adquirido sem testes, totalmente no escuro. Chegou no guincho e por sorte deu a partida no motor movido a álcool depois que recebeu uma bateria nova. Esse motor era da fase experimental do Pró-Álcool, antes de ser uma opção para os carros produzidos em grande escala, equipou os veículos do Estado, como as viaturas policiais, ambulâncias e carros de serviço, como o da estatal Telesp.

Não demorou a ficar bege, ninguém em casa ficava confortável a pagar o mico de andar com o carro daquela cor. No começo a intenção foi vendê-lo, lucrando alguns trocados, mas o carrinho estava incrivelmente bem conservado, com uma suspensão suave e silenciosa, sem nunca ter levado uma batida, andava suave pelas ruas e era econômico, então passou a fazer parte da família por muitos anos e como meu pai sempre mexeu com construção, carregou de tudo: escadas, portas, madeiras, sacos de cimento, portões, latas de areia, enfim, tudo que pudesse ser encaixado no seu bagageiro de teto. Foram anos de trabalho pesado que acabaram com sua carroceria, com ferrugem e amassados, sem muita esperança de recuperação. Um dia foi encontrada uma carroceira completa num desmanche, inteira e do mesmo tom bege, feito o negócio, bastou fazer a troca e o Fusca ficou como novo de novo.

Não foi meu, sempre foi o Fusca do meu pai, mas foi o que aguentou minhas primeiras barbeiragens, incluindo aqueles solavancos de quem tira o pé muito rápido da embreagem e aquelas raspadas no portão.

A primeira experiência de dirigir foi com ele e, claro, inesquecível. Naquele ano eu completaria 18 e insistia muito para que meu pai me ensinasse a dirigir antes de entrar na auto-escola, pois como era comum naqueles dias, a maioria dos garotos já chegava na auto-escola com experiência no volante. Tinha pressa e pouca grana, por isso não suportaria o sacrifício de fazer muitas horas de aula.

Um garoto de 18 anos que nunca sentou num banco de motorista a não ser por brincadeira já sabe a teoria da arte de dirigir a muito tempo, não consegue pensar em outra coisa. Eu, pelo menos, era assim. Observava cada movimento dos pés, cada mudança de marchas, cada virada de volante. Quando andava de ônibus, procurava ficar ao lado do motorista, observando todo o seu trabalho, a arte de cada curva. Garanto que se me dessem a oportunidade, seria capaz de dirigir um ônibus lotado sem muita dificuldade. Foi assim com meu pai. De tanto encher sua paciência, num domingo à tarde, enquanto voltávamos para casa, ele se aborreceu e encostou o carro, trocou de lugar comigo e desafiou: – Vamos ver o que você sabe fazer, não quer ser motorista? Mal pude acreditar e claro que não fiz muito feio para uma primeira experiência. Toquei o carro sem errar uma única marcha e cheguei tranquilamente até em casa, sob o olhar atento e atônito do Velho. Me confundi um pouco quando precisei sair de uma avenida e entrar numa travessa, meio perdido sobre a melhor posição para driblar o trânsito no cruzamento e fazer a conversão, um taxista xingou, dane-se, no final foi uma nota 9, com louvor.

Depois de conseguir minha habilitação, um problema que vou relatar num próximo tópico, me impediu de conquistar logo meu primeiro carro, por isso continuei por pelo menos um ano dividindo esse Fusca com meu pai, que dirigia o carro durante a semana e me cedia o carrinho para os passeios das tardes de domingo. Foi uma bela experiência, aprendi muito com ele, um dos Fusquinhas mais gostosos que dirigi.

Tenho saudades e torço para que ainda continue vivo, rodando por aí.

Meus Carros – O do meu pai

O carro do meu pai. A minha primeira experiência com ronco de motor e cheiro de gasolina queimada. Inesquecível, cheio de histórias.

Um Dodge Kingsway 1951 Station Wagon, que a gente chamava de “Perua Dodge”. Um carrão americano, enorme e cheio de estilo e de vontades. Acompanhou tanto tempo a nossa família que deixou de ser simplesmente um carro, foi um dos nossos, sofreu e compartilhou alegrias. Gosto de pensar assim, carros não são máquinas frias, tem sentimentos, dias bons e ruins, alguns são sempre simpáticos, outros são mal humorados. Gosto de carros sorridentes, como aquele belo sorriso gringo que a nossa Perua Dodge estampava.

A nossa era temperamental. Às vezes se negava a chegar ao destino, hoje penso que sua personalidade era tão forte que era a única a ter coragem de discordar do meu pai, mudando o que ele planejava. Talvez preferisse parar no meio do caminho e nos proporcionar um piquenic num posto de gasolina de beira de estrada, ou simplesmente ficava cansada e preferia voltar para casa debruçada sobre um guincho, nos deixando ainda mais animados, apesar do mau humor do meu pai.

Uma viagem de carro naquela época, mesmo que curta, era certeza de aventura. Sabíamos a hora que saíamos de casa, mas nunca podíamos prever quando e nem menos se chegaríamos. Quando minha mãe anunciava que iríamos passear no fim de semana, ficava todo empolgado. Pouco me importava o destino, não me interessava se iríamos para a casa de um tio próximo ou se cruzaríamos o estado, o que me importava era o tempo que ficaria no carro, admirando as ruas pela janela apressada, apontando para cada carro que via na rua, gritando para mostrar para todos que sabia qual era a marca e o modelo. Na véspera, minha mãe preparava coxinhas, pastéis, pães e um monte de outras delícias, para nos abastecer durante o caminho, pois contava com a possibilidade de ficarmos parados, por um tempo que só a perua sabia.

O carro era enorme, abrigava a todos com um certo conforto e, apertando um pouquinho, dava pra encaixar primos e tios. Num domingo saímos bem cedo para um passeio típico de uma família católica, juntos com primos e tios, seguimos rumo à cidade de Aparecida. Não sei até que ponto chegamos, mas conheci cada posto de gasolina da Dutra. Muitos anos mais tarde, quando meu pai comprou um Fiat 147 novinho, levou meus tios para o passeio, pagando essa dívida, mas claro que todos nós, incluindo os primos, ficamos em casa.

Mas a história mais curiosa que passei nessa Perua Dodge se deu quando minha irmã nasceu, no começo de 1973. Sozinho com os 3 filhos e querendo visitá-la na maternidade, meu pai ordenou que nos arrumássemos para sair. Sem minha mãe por perto, vesti uma roupa qualquer e me enfiei no carro. Um dia de verão escaldante, o banco de corvin colava na pele. Seguimos, saindo da periferia da zona norte em direção ao centro de São Paulo. Tudo ia bem até que no meio de um trânsito caótico, que já existia na época, justamente no ponto mais baixo do “Buraco do Adhemar”, no Anhangabaú, entre DKWs, Fuscas, Kombis e Corcéis, a Perua resolveu engasgar e morrer. Nada a tirava do lugar, era enorme e pesada, impossível empurrá-la para frente ou para trás. Um guarda de trânsito, irritadíssimo com o transtorno que estávamos causando, ordenou a um motorista de Kombi, aquela corujinha, que encostasse na traseira do nosso carro e nos empurrasse para fora. Até hoje lembro da cara irritada do sujeito, praticamente colado ao nosso vidro de trás, gritando muitos palavrões, ensopado de suor. Nos tirou para fora e nos deixou no meio de um entroncamento enorme, acho que naquela convergência entre a 23 de Maio e a 9 de Julho. Não havia semáforo, um guarda ficava numa torre amarela, no meio do cruzamento, apitando e apontando freneticamente os braços, tentando reger o caos.

Com uma estranha calma, meu pai virou para trás e perguntou se queríamos sorvete, assim, no meio de carros raspando e buzinas disparando. Pulamos de alegria, cada um escolheu um sabor. Então ele pediu para que ficássemos quietos dentro do carro e saiu. Voltou um tempo depois com as mãos cheias de picolés. Deu um para cada um, abriu o capô e enquanto chupava o seu picolé, segurou o outro sobre a bomba de gasolina do carro. Nos lambuzamos e em pouco tempo ele fecha o capô, entra no carro, dá a partida e sai tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. Curioso para saber o que tinha feito com aquele sorvete que estava sobrando, ele me responde que estava muito calor e que a Perua chupou todo o picolé, deixando só o palito. Simples assim. Só entendi muito tempo depois.

Outros tantos momentos como esse aconteceram, a maioria virou apenas flashes de memória. Um desses flashes traz a imagem nítida da minha mãe rezando o terço na descida da serra para Santos, preocupada com uma tal de Curva da Onça.

Um certo dia meu pai resolveu vender a Perua, cansado das reclamações da minha mãe que, por sua vez, estava cansada de empurrar aquele monstro sobre rodas. Um senhor passou pela rua, viu a placa, parou, trocou algumas palavras e fechou o negócio. Chorei, enquanto minha mãe comemorava. No dia seguinte, arrependido, meu pai procurou o sujeito e tentou desfazer o acordo, chegou a oferecer mais do que havia recebido, mas o comprador estava feliz e não aceitou. Nunca mais soube dela.

Outro dia encontrei essa foto na internet, uma Dodge idêntica, com a mesma cor e o mesmo jeito. Gosto de pensar que a mesma.

Meus Carros – O primeiro

jeepedal

Amo carros. Um amor intenso, uma atração que faz parte do meu DNA. A minha lembrança mais remota da infância é sentado num chão cercado de carrinhos de plástico barato, um tipo de brinquedo que não existe mais, réplicas feitas de um plástico mole, moldadas numa forma única, destacando-se apenas as rodas, presas por eixos de metal. Rodas que se soltavam com facilidade, um perigo para as crianças, muitos acidentes devem ter acontecido com garotos entupindo as gargantas com elas ou se espetando com os eixos. Nada grave comigo, só uns arranhões que deixaram algumas marcas. Toda vez que minha mãe se despedia, indo para as compras na feira, pedia um novo carrinho, às vezes ganhava, muitas não. Minha maior diversão era recortar as portas e os capôs, imaginando que dentro deles encontraria os bancos, o volante, o painel e, quem sabe, uns bonequinhos. Claro que era uma fantasia boba, mas insistia na possibilidade, tanto que levava uns tapões na bunda, com minha mãe irritada por ter destruído outro fusca.

Nos anos 70, automóvel novo só era possível para quem tinha muito dinheiro. As famílias de classe média baixa ficavam felizes quando possuíam um carro velho. A esperança era encontrar a sorte nos carnês do Baú da Felicidade. Havia na minha casa uma gaveta com muitos carnês pagos, com o sorriso do apresentador. Lembro da minha empolgação quando, num passeio de domingo, cruzamos com uma carreata de fuscas novos, enfeitados com balões, guiados por felizes sorteados no Programa Silvio Santos, saindo da Vimave.

Carro era o sonho coletivo, turbinado pelos programas dominicais, as músicas da Jovem Guarda e pelas vitórias de Emerson Fittipaldi.

Um certo dia, saí com minha mãe para uma longa caminhada, até uma enorme loja de tecidos no Jaçanã, onde ela compraria um lote de panos para confeccionar as roupas da família. Usar “roupa pronta” era um luxo distante para nós. Na volta, passamos na casa “da comadre”, madrinha da minha irmã. Quando entrei no quintal, topei com a coisa mais maravilhosa que poderia existir, um Jipinho de pedal, feito de lata, lindo, pintado num verde oliva do exército, com rodinhas brancas e calotinhas vermelhas. Fiquei encantado. O filho da madrinha era bonzinho e cedeu alguns instantes de felicidade, deixando-me sentar naquele sonho sobre rodas.

Chorei muito no momento da despedida. Depois, quando cheguei em casa, tive febre, daquelas que deixam a mãe preocupada, pois não abaixava mesmo depois da medicação. Uns dois dias se passaram e minha mãe já tinha me levado para umas duas benzedeiras, sem resultado. Já planejava o último recurso, me carregar na madrugada seguinte para um atendimento no “ienepê esse”.

Porém meu pai não demorou a descobrir o remédio, naquela noite chegou com um Jipinho novo nas costas, idêntico ao que tinha me encantado. Essa cena de felicidade extrema está gravada para sempre e adoro relembrá-la.

Esse Jipinho se tornou o meu maior companheiro, não me contentava só com o quintal, saía pelas calçadas, circulando pelo quarteirão, todos os dias, sob sol intenso, sem nunca cansar. Adorava manobrá-lo para frente e para trás, com balizas perfeitas encaixando entre caixas de garrafas vazias. Outras crianças da rua também curtiram meu carro, revezando nas ladeiras, muitas vezes freando só na beira das guias.

A despedida não poderia ser mais triste, saiu da minha vida amontoado numa carroça, totalmente enferrujado, amassado e sem rodas. Pequeno para as minhas pernas compridas, mas com a sua missão cumprida.