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Algumas coisas são para sempre

regula
xadrez

Acredite. Houve uma época em que as coisas eram feitas para durar. Provavelmente nem os fabricantes imaginavam quanto iriam aguentar. Muitos produtos sobrevivem até hoje, perdidos em gavetas dos avós, enquanto as empresas que os produziram não existem nem na memória. Câmeras fotográficas são exemplos clássicos. Eram produzidas como jóias, com uma precisão mecânica e ótica refinada, para funcionar sob qualquer condição, leves e precisas.

De vez em quando nos deparamos com achados arqueológicos e nos surpreendemos. Nesse final de semana me vi numa loja de coisas usadas, mantida por uma entidade assistencial. Pensando na onda de lomografia, resolvi então procurar por uma câmera antiga. Numa vitrine, no meio da poeira, alguns estojos de couro me chamaram a atenção, pedi para ver e a atendente jogou as peças no balcão como se fossem lixo. Alguns eram mesmo, daquelas câmeras plásticas piratas que imitavam câmeras famosas.

Mas, entre o pó, surge uma linda Regula Sprinty C 300, fabricada pela King, com a inscrição “Made in Western Germany”, nascida de uma Alemanha dividida. Pois é, eu também nunca tinha visto uma antes.
Nem sabia que existia. Mas me chamou a atenção seu estado de conservação, sem riscos, perfeita. Uma preciosidade. Câmera totalmente mecânica, de concepção simples, sem fotômetro e, portanto, sem baterias, garantindo seu funcionamento eterno. A primeira reação é movimentar a alavança para avançar o filme, um movimento leve e delicado, com um som macio. Abro a tampa do filme e percebo que tudo está no lugar, dou uns disparos e vejo a cortina se movimentar perfeitamente. Testo todas as possibilidades e a máquina se mostra como nova.

Pergunto o preço, mas a atendente não sabe responder. Mando 10 reais. Ela sai e volta com uma proposta de 30. Mando 25 reais, mas ela não aceita. Ficamos de comum acordo nos 28 reais. Volto para casa acreditanto que, caso não funcione, terei um lindo peso de papel.

Faço uma pequena pesquisa no Google e descubro que meu achado tem quase 50 anos de idade e mesmo não sendo uma Leica, tem uma história de qualidade, apesar da simplicidade.

Um Kodak Pro Image 100 de 36 poses que aguardava na geladeira serve como teste. Coloco na câmera e saio para a praça. Uma pequena caminhada pelas ruas num domingo à tarde e logo termino o filme. Mando revelar e me surpreendo.

A câmera é old school, ou seja, nada de fotômetro e nada de cliques automáticos. É preciso usar uma sensibilidade pessoal para a luz, arrisco algumas com abertura 5.6 e 125 de velocidade e, quando o dia de inverno vai perdendo o sol, mantenho a abertura e diminuo a velocidade para 60, segurando mais firme, mas garantindo alguns desfoques de fundo. Não dá para enxergar o foco, só chutar as distâncias. Acertei a maioria, mas errei algumas, uma pena. Mesmo assim, uma surpresa com o resultado. Imagens perfeitas, nítidas, com efeitos e uma linda reprodução de cores, uma qualidade que a gente só encontra nas profissionais.

Mas, mais do que boas imagens, fotografar com esse novo brinquedo me deu um prazer danado, uma diversão, experimentando um processo que nem lembrava mais, de tão acostumado que fiquei com o AF, segurando o disparador no meio do caminho. Tive que me calibrar, imaginando distâncias e percebendo as mudanças de luz, detalhes tão importantes, mas que a tecnologia nos faz esquecer.

Com essa velha alemãzinha, revivo aquele frio na barriga ao arriscar um clique por intuição, adivinhando medidas e torcendo por boas imagens ao abrir o envelope no balcão do laboratório. A emoção quase esquecida que me tornou um apaixonado por fotografias.

Como fotógrafo, eu odeio!

odeio web

Sou fotógrafo amador porque amo fotografar. Sou profissional só na hora de gastar em fotografia, raramente ganho alguma coisa com isso além de algumas chateações, aliás, deixei de anunciar minha paixão ou carregar minha câmera para festas e eventos porque ODEIO as situações que surgem por causa disso.

Resolvi registrá-las:

1. Receber um convite para uma festa de aniversário de algum filho de colega de trabalho emendada com o pedido: “- Dá pra você levar sua câmera?” Se digo sim, sinto-me:

Desprestigiado, afinal está claro que minha presença só está sendo desejada porque virá acompanhada da minha câmera, muitas vezes a pessoa mal me conhece ou provavelmente nem gosta de mim.

Explorado, pois enquanto poderia estar sentado com amigos, acompanhado de uma cerveja gelada e alguns salgadinhos, tenho que virar o fotógrafo, obrigando-me a rastejar atrás de uma criança toda melada e mal humorada que ainda quer enfiar o dedo na lente, sem ganhar um único centavo com isso.

Um idiota, trabalhando num raro final de semana de folga, totalmente de graça, tendo como único pagamento um pedaço amassado de bolo depois de ouvir “- Pode deixar que separo um pedacinho pra você! Cuido bem de quem trabalha pra mim!”. E, como sou um convidado oficial, ainda tenho que entregar um presente na entrada do Buffet infantil.

Se digo não, respondendo que tenho outro compromisso, a pessoa fica checando minha mentira na segunda-feira, afinal, teve que se contentar com as fotos feitas na xereta da tia velha porque resolvi ser um convidado ranzinza. O normal é deixar de se cumprimentado por um bom tempo.

2. Estou num lugar público, com minha câmera na mão e ouço um sujeito que nunca vi na vida me cumprimentar com a maior intimidade, para depois ficar apontando onde tenho que fotografar: “- Olha, abaixa aqui, pega essa pranta, virando pra lá...” Também tem aquele aposentado que é o segurança da praça, aquele tipo que tem medo da própria sombra e vem te alarmar: “- Olha, toma cuidado com essa câmera, tem um pessoal aqui que é barra pesada, ontem mesmo levaram a câmera de um sujeito que era menor que a sua...” Também tem o segurança truculento, um armário de terno preto com um fiozinho saindo da orelha, esbravejando um “Não pode fotografar aqui não!”, como se eu fosse um terrorista plantando uma bomba ou estivesse apontando uma arma automática para o público que carrega sacolas da C&A.

3. Sempre tem um sujeito doido pra experimentar sua câmera, querendo enfiar aqueles dedos engordurados de coxinha. Primeiro tenta puxar conversa do tipo “Que câmera legal, custou muito caro?”, geralmente dispenso dizendo que é muito cara e que sou bastante ciumento com ela, mas o sujeito é insistente e dá um grito animado: “- Ah!!! Mas o fotógrafo tem que aparecer também!!!!!”. A vontade que tenho é enfiar a câmera na mochila e ir embora, pior ainda quando consegue um coro... “Isso mesmo! Vem tirar foto também!!! Pode deixar que ele não vai sair correndo com sua máquina!!!” – Já disse que odeio isso?

4. “- Deixa eu ver como ficou? Ah, pode apagar!! Tira outra!!!! Meu olho ficou fechado, parece olho de peixe morto!!!” – A vontade é ser franco, você é feia assim mesmo, isso é fotografia e milagre não existe, só morrendo e nascendo de novo! Mas para não apanhar ou não perder ainda mais amigos na minha lista do Facebook, respondo que a bateria está baixa, por isso não dá pra mostrar.

5. De todas, talvez a que mais me ofende é a seguinte: “- Nossa, que foto linda! Também, com uma máquina dessas...” – A vontade é responder, no mínimo, um “Vai te catar”.